Físico Marcelo Gleiser alerta para riscos cognitivos da inteligência artificial
O físico e professor de Astronomia na Dartmouth College, Marcelo Gleiser, expressou preocupação com a crescente dependência da inteligência artificial (IA), alertando que a confiança cega em suas narrativas pode levar a um “emburrecimento” da capacidade humana. Gleiser, que é curador do São Paulo Innovation Week (SPIW), evento promovido pelo Estadão em maio, compara a IA a uma ferramenta que processa dados, mas que não inova ou amplia a visão de mundo como instrumentos científicos como o telescópio.
Segundo Gleiser, a IA é uma “megamáquina de calcular”, extremamente útil para categorização e análise em pesquisas científicas, como a de novas galáxias descobertas por telescópios. No entanto, ele ressalta que a IA não possui consciência, emoções ou a capacidade de criar algo verdadeiramente novo. “Ela não é uma inteligência. É uma máquina que usa cálculo estatístico para fazer análise de dados”, explicou em entrevista.
IA como ferramenta e o perigo da passividade
O físico faz uma distinção crucial entre a IA como ferramenta de processamento e a ideia de que ela possa superar a inteligência humana. “Ela é um apoio ao pensamento humano. Não é outra forma de pensamento humano”, afirma Gleiser. Ele cita o ChatGPT como um exemplo de ferramenta útil, mas enfatiza a necessidade de checar as informações fornecidas e não confiar cegamente nelas.
O grande perigo, na visão do cientista, reside na passividade com que as pessoas utilizam essas tecnologias. Ele observa que, ao delegar a criação de narrativas e a resolução de problemas para a IA, os humanos perdem a prática do pensamento ativo e crítico. “Se deixarmos a máquina fazer a atividade, você não vai aprender nada. É um perigo sério”, alertou, comparando a experiência de alunos que escreveram redações à mão versus aqueles que usaram chatbots.
Impacto no mercado de trabalho e na sociedade
A eficiência proporcionada pela IA já se reflete no mercado de trabalho. Gleiser relata o caso de um investidor-anjo que substituiu 24 funcionários por IA, argumentando que a máquina é mais “efetiva” economicamente. Essa transposição de empregos é vista como uma realidade, mas o cientista pondera sobre a desumanização do mundo quando funções essenciais como as de advogados, médicos e professores são supostamente substituídas.
“Nós, os usuários, estamos, como sempre, usando a tecnologia de uma forma ou de outra. Quando falamos que a inteligência artificial vai controlar o mundo e destruir a humanidade, quem fala isso somos nós, não ela.”
O físico defende que a inteligência humana é fundamentalmente relacional e que é através da troca entre pessoas que construímos o mundo. A vigilância constante em cidades inteligentes controladas por IA também levanta preocupações sobre a perda da liberdade pessoal, com cidadãos sendo mapeados e controlados 24 horas por dia.
O “quarteto existencial” e a necessidade de equilíbrio
Gleiser propõe que a inovação deve ser compreendida dentro de um ecossistema maior, que ele chama de “quarteto existencial”: ciência, filosofia, espiritualidade e artes. Ele argumenta que a interconexão dessas quatro áreas é fundamental para a existência humana.
“Se a gente não se apoiar bem nesses quatro pilares, a cadeira fica capenga e cai”, compara. Para ele, a ciência por si só não responde a todas as questões humanas e o materialismo excessivo falha. A espiritualidade, por exemplo, pode inspirar inovações com valores morais importantes, como a preservação ambiental.
Educação e filantropia como caminhos para a inovação inclusiva
Para formar profissionais capazes de equilibrar essas dimensões, Gleiser sugere uma reforma curricular, como a existente em universidades americanas, onde os alunos exploram diversas áreas antes de definir sua graduação. Essa abordagem amplia a visão de mundo e o diferencial intelectual e emocional dos indivíduos.
Ele também destaca a importância de tornar a inovação mais inclusiva, lembrando que “toda criança nasce cientista”. O acesso a laboratórios e recursos educacionais é crucial, e ele defende o incentivo à filantropia voltada para a educação, assim como já existe para as artes, para garantir que mais crianças possam desenvolver seu potencial científico.
