José Kobori alerta para risco de nova crise global puxada pela bolha da inteligência artificial

Economista José Kobori alerta para risco de nova crise global puxada pela bolha da inteligência artificial

O economista José Kobori sinalizou um alerta para a possibilidade de uma nova crise financeira global iminente. Segundo sua análise, divulgada em entrevista ao programa 20 Minutos, do Ópera Mundi, em dezembro de 2025, essa crise pode ser impulsionada pela formação de uma bolha especulativa em torno da inteligência artificial (IA), somada à elevada alavancagem de empresas, ao endividamento dos Estados Unidos e a potenciais mudanças na política monetária do Japão.

Kobori traça paralelos com momentos de ruptura anteriores no capitalismo financeirizado, como a crise das empresas pontocom em 2001 e a crise imobiliária de 2008. Ele explica que bolhas financeiras se formam quando o mercado atribui a ativos um valor muito superior à sua capacidade real de gerar caixa futuro, muitas vezes acreditando em algo que não se concretizará.

A bolha da inteligência artificial

Na visão de Kobori, a inteligência artificial emerge como o ativo mais provável a inflar uma nova bolha especulativa. Ele aponta que, atualmente, a Nvidia é praticamente a única grande empresa do setor a gerar caixa de forma consistente, graças à venda de chips e equipamentos físicos. Em contrapartida, empresas focadas em software de IA, como a OpenAI, ainda dependem significativamente de financiamento privado e, crescentemente, de apoio estatal.

“Na corrida do ouro, quem ganha dinheiro é quem vende a pá”, exemplificou Kobori, destacando a Nvidia como a “vendedora de pás” nesse cenário. Essa dinâmica sugere que a valorização de muitas companhias de IA pode estar dissociada de seus resultados financeiros reais.

Risco sistêmico e comparação com crises passadas

O economista adverte que a eventual explosão da bolha da IA pode ter um impacto sistêmico ainda maior do que a crise de 2008. Como os investimentos em IA estão dispersos por fundos globais, a contaminação financeira pode se alastrar rapidamente pelo sistema financeiro internacional. Kobori compara o cenário atual à Grande Depressão de 1929, devido ao descolamento expressivo entre o valor das empresas listadas em bolsa e a economia real.

Ele ressalta que, sem a influência das chamadas “sete magníficas” – as maiores empresas de tecnologia americanas –, o índice S&P 500 estaria praticamente estável, evidenciando uma concentração excessiva na valorização do mercado acionário dos EUA.

O papel do Japão e a política monetária

Outro ponto de atenção levantado por Kobori é a possível mudança de postura do Banco Central do Japão. Por décadas, o Japão manteve taxas de juros próximas de zero ou negativas, atuando como grande fornecedor de liquidez global através do “carry trade” – operações onde investidores tomam empréstimos baratos em ienes para aplicar em ativos dolarizados.

Uma elevação dos juros no Japão, especialmente em um contexto de potencial redução das taxas pelo Federal Reserve nos EUA, poderia diminuir o diferencial de liquidez e desencadear liquidações em cadeia, desestabilizando o sistema financeiro mundial.

Estados Unidos: dobrando a aposta e a dependência da IA

Kobori critica a estratégia dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, de tentar prolongar a bolha. Essa tentativa se daria através da pressão por juros menores e do incentivo a investimentos em IA. O economista argumenta que a economia norte-americana demonstra uma crescente dependência da inteligência artificial, com parte expressiva do PIB recente ligada a investimentos em hardware, software e infraestrutura de IA, enquanto a economia real estagnaria.

Ele também aponta vínculos entre empresas de IA e o complexo militar-industrial dos EUA, citando a Palantir como exemplo. Kobori sugere que, em meio à crise, uma escalada militar poderia ser vista por setores americanos como uma forma de reorganizar a economia global.

“Acredito que uma das saídas que os Estados Unidos estão vislumbrando é guerra.”

Brasil: proteção relativa e necessidade de ação

No que diz respeito ao Brasil, Kobori considera que o país possui instrumentos de defesa robustos, como altas reservas internacionais e capacidade de intervenção do Banco Central. Contudo, uma crise global inevitavelmente atingiria o Brasil através da fuga de capitais, queda da bolsa, encarecimento do crédito e retração econômica.

Para enfrentar um choque de liquidez, o economista defende uma combinação de queda de juros com expansão do gasto público direcionado. Ele cita o auxílio emergencial da pandemia como um exemplo de medida eficaz para sustentar o consumo e a atividade econômica.

“Nos marcos do arcabouço fiscal não daria para enfrentar uma crise como essa.”

Críticas ao arcabouço fiscal e defesa da reindustrialização

Kobori critica as restrições fiscais impostas ao Estado brasileiro, argumentando que o arcabouço fiscal precisaria ser revisto em caso de uma crise de grandes proporções. Ele defende a redução da meta de inflação, maior intervenção do Banco Central no câmbio e juros mais baixos para estimular a economia real.

Segundo ele, a taxa de juros elevada, embora ofereça um escudo cambial no curto prazo, representa uma fragilidade estrutural ao inibir crescimento, investimento e industrialização. Para Kobori, o Brasil só superará sua condição de capitalismo periférico através de investimentos massivos em ciência, tecnologia, infraestrutura e indústria, apoiando iniciativas como a Nova Indústria Brasil e ampliando o crédito do BNDES.

Ao final da entrevista, Kobori indicou Celso Furtado como o maior economista brasileiro e Karl Marx como uma figura de contribuição histórica crucial para a compreensão do capitalismo.

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