‘AI washing’: como a inteligência artificial se tornou bode expiatório para layoffs

A inteligência artificial como escudo corporativo para demissões

A inteligência artificial (IA) tornou-se uma ferramenta corporativa poderosa, não apenas para inovações tecnológicas, mas também para gerenciar percepções de mercado em momentos delicados. Uma prática crescente, apelidada de ‘AI washing’, consiste em atribuir cortes de pessoal à IA, mesmo quando as demissões teriam ocorrido por outros motivos. Empresas utilizam essa narrativa para apresentar reduções de quadro como uma reestruturação proativa e voltada para o futuro, em vez de uma resposta a dificuldades financeiras.

O CEO da OpenAI, Sam Altman, reconheceu abertamente que algumas empresas estão praticando ‘AI washing’ em suas demissões. Essa estratégia visa obter uma recepção mais favorável de investidores e partes interessadas. Conforme uma pesquisa do site Resume.org com 1.000 gerentes de RH, 59% deles admitem enfatizar o papel da IA nas demissões porque essa justificativa é vista de forma mais positiva do que admitir restrições financeiras. Apenas uma pequena parcela, 9%, relatou que a IA realmente substituiu alguma função integralmente.

O impacto no mercado e a percepção dos investidores

Historicamente, investidores tendem a penalizar empresas que anunciam cortes como resposta a problemas. Em contrapartida, quando demissões são apresentadas como parte de uma reestruturação proativa, a penalidade de mercado muitas vezes desaparece. A IA emergiu como a justificativa proativa mais eficaz, com frases como “estamos nos reestruturando em torno da IA” sinalizando crescimento e inovação. Isso contrasta com declarações como “contratamos em excesso durante a pandemia e a receita diminuiu”, que evocam responsabilização.

No entanto, a crença na IA como motor de demissões não é universalmente aceita pelos investidores. Um estudo do Goldman Sachs Group no final de 2025 indicou que, em alguns casos, ações de empresas que atribuíam cortes à IA foram penalizadas em média 2%, pois os analistas não acreditavam nas justificativas apresentadas. A alta de 22% nas ações da fintech Block após anunciar a redução de 40% de sua força de trabalho, justificada pelo CEO Jack Dorsey como um movimento impulsionado pela IA, sugere que, apesar dos ceticismos, a estratégia de ‘AI washing’ continua sendo uma aposta válida para muitas corporações.

A discrepância entre discurso e realidade

Dados gerais apontam uma divergência significativa entre o discurso corporativo sobre IA e o impacto real no emprego. Quase 90% dos executivos entrevistados em um estudo do National Bureau of Economic Research afirmaram que a IA não impactou significativamente o emprego nos últimos três anos. Comparativamente, das 1,2 milhão de demissões registradas pela Challenger, Gray & Christmas em 2025, a IA foi citada em menos de 55 mil casos, representando apenas 4,5% do total. As tradicionais “condições de mercado e econômicas” foram responsáveis por um volume de demissões quatro vezes maior.

O problema do ‘AI washing’ reside na confusão que ele gera internamente e externamente. Um exemplo notório foi o da Amazon, onde o CEO Andrew Jassy inicialmente sugeriu que a IA levaria à necessidade de menos pessoal. Posteriormente, após demissões significativas, ele corrigiu o rumo, afirmando que os cortes não foram impulsionados pela IA, mas sim pela “cultura” da empresa. Essa incoerência reflete uma organização tão imersa em sua própria narrativa que a própria liderança tem dificuldade em apresentar uma justificativa clara e consistente para suas ações.

A narrativa da inevitabilidade tecnológica se torna mais valiosa do que a própria tecnologia, criando um mercado futuro de desculpas.

O paradoxo de Solow revisitado e o futuro

O fenômeno atual guarda semelhanças com o “paradoxo de Solow” de 1987, quando computadores estavam em toda parte, exceto nas estatísticas de produtividade. Naquela época, era um problema de medição, com os dados ainda não acompanhando a evolução tecnológica. Atualmente, a IA está em toda parte, mas sua citação nas estatísticas de demissões é anêmica, com executivos preenchendo essa lacuna com narrativas de ‘AI washing’.

Ao contrário da década de 1980, onde ninguém culpava o surgimento do computador pessoal por demissões de recessão, hoje a IA é frequentemente apontada como a culpada por cortes motivados por correções pós-pandemia, incertezas tarifárias e desaceleração da demanda. Enquanto um problema de medição tende a se resolver com a chegada dos dados, um problema de gestão se agrava. A adoção de explicações falsas não apenas engana investidores, mas também compromete a capacidade de diagnosticar e gerenciar a realidade organizacional.

A atribuição incorreta de demissões à IA reforça a falácia da massa de trabalho – a ideia equivocada de que existe uma quantidade fixa de trabalho e que a tecnologia o consome. Essa falácia já se provou errada para tecnologias anteriores e não merece a credibilidade que o ‘AI washing’ lhe confere. Assim como os computadores eventualmente transformaram a produtividade uma década depois, a IA provavelmente o fará. Contudo, a proliferação de narrativas infundadas pode tornar impossível distinguir a substituição genuína pela IA de meras desculpas corporativas quando ela efetivamente ocorrer.

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