Real ou fabricado? Inteligência Artificial se torna mais um ator da guerra no Irã

Inteligência artificial: o novo protagonista da desinformação bélica

A guerra no Oriente Médio em 2026 viu a inteligência artificial (IA) emergir como um ator significativo, não no campo de batalha físico, mas no digital. Vídeos e imagens gerados artificialmente tornaram-se ferramentas potentes de desinformação, levantando dúvidas sobre a autenticidade do conteúdo veiculado e aprofundando a crise de confiança já existente em zonas de conflito.

O caso do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com um vídeo que o mostrava supostamente com seis dedos, ilustra a complexidade. Embora especialistas tenham explicado a anomalia como um efeito de sombra, a rápida disseminação nas redes sociais gerou teorias de que se tratava de um deepfake destinado a ocultar sua suposta morte em um ataque iraniano. Essa dificuldade em distinguir o real do fabricado reflete um desafio crescente na era da informação.

A escalada do realismo e o “ruído digital”

Ferramentas de IA cada vez mais sofisticadas, de baixo custo e acessíveis, são capazes de produzir conteúdos ultrarrealistas que eliminam defeitos antigos, como a questão dos dedos em imagens geradas. Isso intensifica o que pesquisadores chamam de “ruído digital”, saturando plataformas e sobrecarregando os mecanismos de verificação de fatos.

Segundo Thomas Nowotny, diretor de um grupo de pesquisas sobre IA da Universidade de Sussex, “acho que todos devemos começar a tratar fotos, vídeos e áudios da mesma forma que tratamos os rumores”. A capacidade desses conteúdos artificiais de ofuscar imagens autênticas gera uma crise de confiança onde informações reais também são descredibilizadas.

O “dividendo do mentiroso” e a crise de credibilidade

A proliferação de conteúdo falso gerado por IA supera a capacidade de verificação dos profissionais. A revista Der Spiegel, por exemplo, precisou retirar imagens relacionadas ao Irã por suspeita de terem sido geradas por IA. Esse volume de desinformação é tão grande que algumas informações verídicas, mas comprometedoras, acabam sendo rotuladas como falsas, um fenômeno conhecido como “dividendo do mentiroso”.

Constance de Saint Laurent, professora na Universidade de Maynooth, na Irlanda, aponta que “o problema é que veem informações reais e já não confiam nelas”. Isso dificulta a responsabilização e pode até mesmo facilitar a negação de atrocidades, como advertiu um relatório da Tech Policy Press.

Plataformas e a “Legoficação” da propaganda

As plataformas de redes sociais desempenham um papel crucial na disseminação desses conteúdos. Seus algoritmos, que priorizam a interação e o sensacionalismo, muitas vezes impulsionam desinformação. O Instituto para o Diálogo Estratégico (ISD) cunhou o termo “Legoficação” para descrever a banalização de conflitos através de memes gerados por IA, como um filme iraniano falso acusando Donald Trump de atacar Teerã.

As redes sociais “agem como editoras, por meio do que decidem mostrar prioritariamente no seu feed de notícias”, ressalta Constance de Saint Laurent. O incentivo financeiro para criadores de conteúdo que buscam cliques e visibilidade agrava o problema, levando à publicação de informações enganosas ou fabricadas.

Desafios na detecção e o futuro da confiança

Ferramentas de detecção de IA, embora desenvolvidas para combater a desinformação, nem sempre são precisas, gerando resultados conflitantes e aumentando a confusão. Em um cenário onde a pergunta “é real?” se torna cada vez mais difícil de responder, a desconfiança generalizada pode ter consequências graves para a percepção da verdade e para a resolução de conflitos.

A AFP, por exemplo, identificou uma imagem publicada por uma conta oficial iraniana após um ataque em Minab como muito provavelmente gerada por IA. A reação de alguns usuários do Reddit, “Provavelmente modificada por IA, mas o significado é real”, reflete uma resignação crescente diante da complexidade da informação na era digital, onde a distinção entre fatos e fabricações se torna cada vez mais nebulosa.

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